O agro não deve se ajoelhar — deve ser ouvido

Opinião · Editorial

Fala do presidente Lula em Santa Catarina reacende o debate sobre a relação entre o Estado e quem produz. Política pública não é favor pessoal — e apoio público não dispensa responsabilidade.

Por Romário Cruz · Eldorado do Sul (RS) · 27 de setembro de 2026

Editorial: O agro não deve se ajoelhar — deve ser ouvido e cobrado

Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

Ao afirmar, durante agenda eleitoral em Santa Catarina, que o agronegócio “deveria não só votar, mas se ajoelhar” para ele, em referência aos recursos públicos destinados ao setor, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva provocou uma reação que vai além da disputa política. A frase toca uma questão essencial: qual deve ser a relação entre o Estado e quem produz? Em uma democracia, políticas públicas não são favores pessoais do governante — e reconhecer a importância de um setor não significa conceder-lhe imunidade a críticas ou obrigações.

O agronegócio tem peso decisivo na vida brasileira. Da agricultura familiar às grandes cadeias de grãos, carnes, frutas, fibras e biocombustíveis, o setor abastece o mercado interno, movimenta transporte, armazenagem, indústria e comércio, gera trabalho e renda e sustenta boa parte das exportações. Quando a produção rural cresce de forma sustentável, seus efeitos alcançam municípios inteiros: cooperativas, fornecedores, prestadores de serviço, pequenas empresas e consumidores. O campo também contribui para a segurança alimentar e para a arrecadação pública.

Por isso, imaginar o agro parado é imaginar uma crise nacional. A oferta de alimentos cairia; preços e custos poderiam subir; frigoríficos, portos, transportadoras e indústrias ligadas à produção perderiam atividade; e milhares de empregos, diretos e indiretos, ficariam ameaçados. As exportações e a entrada de divisas seriam afetadas, assim como a renda de regiões inteiras que dependem da atividade rural. O impacto não ficaria restrito aos produtores: chegaria à mesa das famílias e ao orçamento do país.

Aqui no Rio Grande do Sul, que ainda reconstrói lavouras, estradas e cidades atingidas pelas enchentes de 2024, essa discussão não é abstrata. Quando o campo sofre, o comércio, a indústria e os serviços do interior sofrem junto.

Apoio público exige contrapartida

Nada disso coloca o setor acima de qualquer cobrança. Produzir é indispensável, mas também é preciso cumprir a legislação trabalhista e ambiental, combater o desmatamento ilegal, respeitar comunidades e povos tradicionais e usar a água e o solo com eficiência. O apoio público — crédito, seguro rural, pesquisa e infraestrutura — deve ser transparente, bem planejado e acompanhado de resultados mensuráveis. E precisa alcançar diferentes perfis de produtores, inclusive a agricultura familiar, que tem papel fundamental no abastecimento.

A política perde quando transforma a relação entre governo e produtores em uma disputa de humilhação. O Estado pode e deve cobrar contrapartidas e fiscalizar; o setor pode e deve reivindicar condições justas e previsibilidade. Nenhum dos dois precisa se ajoelhar. O que o Brasil precisa é de diálogo, regras estáveis, investimento em ciência e logística e compromisso com uma produção que gere prosperidade sem destruir os recursos dos quais depende.

Se o agro parar, o país sente. Se o agro produzir sem responsabilidade, o país também paga a conta.

A resposta, portanto, não é reverência a um presidente nem hostilidade a um setor inteiro. É reconhecer sua contribuição, exigir responsabilidade e construir políticas públicas que sirvam à sociedade brasileira — e não a quem ocupa o poder.


Fontes da declaração: Poder360 · CNN Brasil · Exame

Este é um texto de opinião e expressa exclusivamente a visão do autor.

Romário Cruz · Eldorado do Sul, RS · Rede Bolha
Conteúdo apurado e editado por Adm. Romário Cruz, jornalista registrado — MTb 0021682/RS. · Expediente e política editorial

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