Querem acabar com a PM. E quem vai atender o seu 190? Oct 24, 2026

  • Não é para o professor de sociologia. Não é para o militante de rede social. É para o 190. E quem atende é um policial, muitas vezes um pai de família que ganha pouco, dorme pouco e sai de casa sem saber se volta.

    Eu comecei no rádio como office-boy e hoje assino texto como jornalista. Nesse caminho, ouvi muita história de assalto, de sequestro, de mãe chorando por filho morto por bandido. E reparei numa coisa: nessas histórias, o policial quase nunca é o vilão. Ele é quem chega.

    Mesmo assim, de tempos em tempos, volta a conversa de "acabar com a Polícia Militar". Então vamos falar disso sem rodeio: de onde vem esse ódio à polícia, e quem, de fato, quer acabar com a PM?

    O protagonista que a narrativa esquece

    Toda vez que se fala de polícia no Brasil, a manchete começa pelo número de mortos em confronto. Raramente começa pelo policial.

    Então vamos começar por ele. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, 88 policiais foram vítimas de homicídio ou latrocínio em 2025. Desses, 59 estavam de folga. Ou seja: o policial não deixa de ser alvo quando tira a farda. Ele é reconhecido na padaria, na parada de ônibus, na frente dos filhos.

    E tem uma ferida que quase ninguém comenta. Em 2025, 110 policiais tiraram a própria vida. Pelo terceiro ano seguido, o suicídio foi a principal causa de morte entre policiais no país. É o peso de quem vê o pior da sociedade todos os dias e ainda escuta que é o problema.

    Agora olhe para o outro protagonista esquecido: a vítima do crime. A senhora assaltada no ônibus. O comerciante que fecha a loja com medo. A família do trabalhador morto por um celular. Essa gente não vira hashtag. Mas é por ela que o policial sai de casa.

    E o trabalho aparece no resultado. Em 2025, o Brasil registrou a menor taxa de mortes violentas desde 2012: 19,1 por 100 mil habitantes, abaixo de 20 pela primeira vez na série. Isso não acontece com a polícia de braços cruzados.

    Sim, o Anuário também aponta um recorde de mortes em intervenções policiais: 6.602 em 2025. Cada caso deve ser investigado, e em São Paulo, por exemplo, a Secretaria de Segurança afirma que todas essas mortes passam pela corregedoria, pelo Ministério Público e pelo Judiciário. Quem errou tem que responder. Mas transformar a exceção em retrato da corporação inteira é injusto com os milhares que fazem o certo todos os dias.

    O médico erra. Alguém quer acabar com os médicos?

    Olha só uma comparação simples.

    Todo ano, médicos erram diagnóstico, cirurgias dão errado, pacientes morrem em hospital. É triste, é grave, e quem errou deve responder no conselho e na Justiça. Mas você já viu alguém pedir o fim da medicina? Já viu passeata para extinguir os hospitais?

    Não. Porque todo mundo entende que o médico trabalha sob pressão, com vidas nas mãos, e que o erro de um não apaga o trabalho de milhares.

    Com o policial deveria ser igual. Ele também decide em segundos, com a própria vida em jogo, numa rua escura, diante de alguém armado. A diferença é que o médico não leva tiro de volta do paciente.

    Punir o erro, sim. Condenar a profissão inteira, não.

    Quem quer acabar com a PM

    Agora a pergunta do título. Quem defende o fim da Polícia Militar?

    A resposta está nos documentos. A proposta mais conhecida é a PEC 51/2013, do então senador Lindbergh Farias, do PT do Rio de Janeiro. Ela juntaria as polícias Civil e Militar numa polícia só, de natureza civil, e transformaria as guardas municipais em polícias municipais. A PEC não avançou e está arquivada.

    Na eleição presidencial de 2018, Guilherme Boulos, do PSOL, e Vera Lúcia, do PSTU, colocaram a desmilitarização nos seus planos de governo. E a pauta, no Congresso, sempre foi puxada sobretudo por partidos de esquerda.

    O discurso vem embalado em palavras bonitas: "humanizar", "reformar", "desmilitarizar". Mas o efeito prático é desmontar a hierarquia e a disciplina que mantêm uma tropa armada sob comando. E troca uma estrutura que funciona por uma aposta.

    E tem um detalhe que esse pessoal costuma esquecer. A Polícia Civil já não é militar. Em 2014, o Instituto Sou da Paz apontava que só 8% dos homicídios eram esclarecidos no país. Tirar a farda nunca foi garantia de polícia melhor.

    O que a sociedade deve a quem a protege

    A população, quando perguntada, não comprou essa ideia. Quando o Senado abriu uma enquete sobre a PEC 51, em 2014, a maioria dos quase 99 mil votos foi contra a desmilitarização: 54%.

    O caminho não é acabar com a PM. É fortalecer quem está nela.

    Isso começa pelo básico: salário digno, equipamento decente, viatura que funciona, formação e treinamento contínuos. Passa pela saúde mental, que hoje mata mais policiais do que o confronto. A Lei 14.531, de 2023, criou diretrizes de prevenção ao suicídio entre profissionais de segurança. Precisa sair do papel em cada estado.

    E passa por respaldo. O policial que age dentro da lei precisa saber que o Estado vai estar do lado dele, e não correr para condená-lo antes da investigação. Quem desvia, que seja punido com rigor. Quem cumpre o dever, que seja reconhecido.

    Uma corporação valorizada erra menos. Uma corporação abandonada e xingada todo dia adoece.

    Quem segurou o barco

    Quem viveu a enchente de maio de 2024 aqui em Eldorado do Sul não esquece. Muita gente saiu de casa num barco, puxada por um brigadiano molhado até o pescoço, que tinha deixado a própria família para trás para salvar a nossa.

    Ninguém perguntou a ideologia dele. Ninguém pediu para ele tirar a farda antes de estender a mão.

    É esse homem e essa mulher que alguns querem extinguir com uma canetada. Eu fico do lado deles. Do lado de quem atende o 190, de quem entra onde todo mundo foge, de quem dá a vida por gente que nem conhece.

    E você? Na próxima vez que precisar de socorro, vai ligar para quem?

    Adm. Romário Cruz é jornalista, administrador e escritor.

    Fontes

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